1. Os empresários bonzinhos e as doações de campanha
Jorge Antunes
Professor Titular da Universidade de Brasília,
Pesquisador do CNPq,
Membro da Academia Brasileira de Música
Em 9 de novembro de 2002 o Correio Braziliense publicou matéria intitulada "Prestação de contas", em que eram dados alguns detalhes sobre o financiamento de campanha, no primeiro turno, dos candidatos à Presidência da República. Algumas das informações revelavam um interesse incomum, de empresários, pelo bem do Brasil. Em 23 de setembro de 2002 o Vox Populi divulgou pesquisa em que Garotinho empatava com Ciro Gomes: em 48 horas a Schincariol e a Construtora Camargo Corrêa despejaram R$ 800 mil na conta do PSB, partido ao qual Garotinho era filiado.
Muitos outros bondosos empresários, sempre legalmente no esquema do caixa um, estiveram preocupados com a felicidade de nosso país, percebendo que tão bons presidenciáveis precisavam de apoio financeiro. Em 4 de outubro, a dois dias do primeiro turno, mais R$ 940 mil foram doados à campanha de Garotinho pela Companhia Siderúrgica Nacional, pela Construtora Camargo Corrêa e pela Sergen Engenharia.
É fácil concluir acerca da benevolência dos empresários. Observe-se que, ao fazerem doações para a campanha eleitoral, as empresas e os empresários não têm qualquer incentivo fiscal. Não existe uma lei rouanet ou uma lei sarney para doações de campanha. Os doadores usam dinheiro de seus próprios lucros ou de suas próprias riquezas pessoais, sem qualquer dedução no imposto de renda. Talvez outras leis existam para explicar essa generosidade. Poderíamos falar em lei da selva, lei do mais forte, lei da oferta e da procura ou, até mesmo, em leiloamento, mas o fenômeno, previsto em lei, nada tem a ver com a conhecida lei do mecenato.
Tudo aqui comentado – lembremos ao leitor – se refere ao caixa um, previsto em lei. Várias perguntas imediatamente nos acorrem quando pensamos na questão. Por que o legislador permite que empresas e empresários façam doações para campanhas políticas? O quê leva o legislador a imaginar que existirão empresas e empresários interessados em financiar campanhas? A troco de quê eles fariam tais doações?
A mesma matéria do Correio nos contava que o grupo Gerdau doou R$ 1,315 milhão ao candidato Ciro Gomes. A Votorantim, do empresário Antonio Ermírio de Moraes, que apareceu no programa eleitoral pedindo votos para José Serra, doou R$ 400 mil para a campanha de Ciro.
É muito comum essa magnanimidade do capital: a mesma empresa faz doações a diferentes candidatos adversários entre si. No jogo do bicho a estratégia é velha conhecida: o ato de cercar o bicho pelos sete lados aumenta as chances de sucesso. Em época de eleições uma espécie de jogão do bicho se promove, com grandes somas despejadas pelos sete lados do lodaçal.
Guardo com carinho, em meu implacável arquivo pessoal, duas cartas das Indústrias Votorantim, uma delas assinada pelo próprio Antonio Ermírio de Moraes, o mesmo que em 2002 doou R$ 400 mil para a campanha de Ciro Gomes. São missivas, da mesma época, que me informam acerca da falta de recursos da empresa para atender meu pedido de R$ 400 mil para projetos culturais. Minha ópera Olga e minha Cantata dos Dez Povos, projetos que contavam com o aval do Ministério da Cultura para captação de recursos com os benefícios da Lei do Mecenato, não podiam então sair do papel.
O empresário poderia conceder verba aos projetos culturais, com desconto no imposto de renda. Não o fez. Sem usar de incentivo fiscal, entretanto, foi possível encher as burras dos tesoureiros de campanha de diferentes candidatos. Tudo, repito, dentro do caixa um. Poderíamos, então, chegar a interessante conclusão. Em época eleitoral o empresário abdica do direito de ter isenção fiscal. Vincular seu produto a um evento cultural, em período de eleições, não garante um Brasil promissor para as gerações futuras. O empresário é tão magnânimo, tão patriota, tão bonzinho, que prefere dividir sua fortuna, sem qualquer interesse pessoal, sem isenções fiscais, com candidatos maravilhosos e honestos, cumpridores das leis, tementes a Deus, que hão de cumprir suas promessas de manutenção de um status quo que perpetuará a exploração do homem pelo homem.
A conclusão a que chego, essa que reconhece a existência do empresário bonzinho, pode ser contestada por qualquer um. Outros poderão chegar a outras conclusões. Estes, por questão de coerência, deveriam ficar atentos e destinar seus votos aos candidatos que não aceitem doações através de caixa dois, mas que também não aceitem doações através do caixa um, apesar de a lei permitir. Nem toda lei é legítima. Nem toda lei cheira bem. Tem lei que pega facilmente porque é podre desde seu nascedouro.
Voltar _____ 2. A covarde invasão do Congresso
Jorge Antunes
Professor titular da UnB, autor da Sinfonia das Buzinas e da ópera Olga
No começo da era cristã alguns grupos de germanos orientais, entre eles os asdingos e os silingos, atravessaram o Reno e saquearam a Gália. Em 439, depois de vários roubos e saques, conquistaram Cartago. Seis anos depois, fortalecidos, atacaram Roma por mar. Ali novamente saquearam sem piedade. Esses grupos perseguidores de cristãos eram os chamados vândalos.
Grupos de vândalos ainda hoje saqueiam o povo desprotegido. Isso acontece aqui, em nosso Congresso Nacional. À população são exibidas cenas deprimentes que revelam prejuízo de milhões de reais aos bolsos dos brasileiros.
Hoje sabemos que foi tudo premeditado. Existem filmes que comprovam isso. Lembro-me muito bem da campanha na TV em 2002. Os filmes estão guardados nos arquivos dos partidos existentes à época. Algumas emissoras de televisão guardam os filmes da cobertura jornalística da cerimônia de posse. Os filmes, apresentados no horário gratuito de propaganda eleitoral, levavam às casas dos brasileiros promessas falsas de gente que por fora era boa viola mas que, por dentro, era pão bolorento. Como verdadeiros lobos em pele de cordeiro, os olhos das feras, em suas falações televisivas, se mexiam de um lado para outro, denunciando a leitura vazia que faziam de textos pré-fixados em um teleprompter.
Enfim, conseguiram ludibriar o povo brasileiro. Festanças foram organizadas por seus apoiadores para comemorar a vitória. O ano novo despontava para execução de planos mirabolantes. Terno novo, gravata nova, sapato novo, vestidos elegantes para esposas, amantes e filhas, iriam enfeitar o salão verde e o próprio plenário para a cerimônia de posse.
No primeiro dia eles se aproximaram, engravatados, eleitos pelo povo, e roubaram algumas flores do jardim que fica em frente ao Anexo 2 do Congresso Nacional. Os seguranças não disseram nada. Pelo contrário, sorriram achando poética aquela agachadinha do novo tribuno, representante do povo. As flores, é verdade, iriam murchar nos gabinetes. Mas, parecia que eles queriam levá-las para as respectivas amadas que, lindamente vestidas, aguardavam na entrada.
No segundo dia, na maior cara de pau, eles pisaram no jardim esmagando as flores. De novo, os seguranças não disseram nada. Ao invés de se dirigirem ao plenário, foram matar a sessão, às gargalhadas, no cafezinho. Os seguranças e os demais funcionários não disseram nada. Os eleitores também não disseram nada, apesar de noticiada a gazeta na imprensa.
Até que um dia, o mais frágil deles entrou sozinho na casa do povo e roubou-nos a luz da esperança, liderando uma quadrilha que tramou compra de votos, mensalões e emendas escusas no orçamento. Conhecendo o medo do povo e a ingenuidade do eleitorado, começaram a ensaiar patifarias maiores. Com casuísmos e mentiras, passaram a arrancar as vozes das gargantas dos colegas que começaram a denunciar as ações criminosas. Achavam que os radicais, com as vozes arrancadas, já não poderiam dizer nada. Enganavam-se redondamente.
É criminoso usar a mentira, o subterfúgio e a hipocrisia para, enganando o eleitor, ser sufragado nas urnas e tomar o Congresso, de assalto, com intenções espúrias e inconfessáveis. Corruptos, selvagens, sanguessugas, baderneiros: assim têm sido chamados os deputados traidores do povo, que atacam a democracia em nosso país.
Os deputados pisadores de flores e arrancadores de vozes de gargantas honestas são hoje tratados pelo povo como arruaceiros e criminosos, chegando até a serem comparados com o PCC. Mas o sentimento corporativo da corrupção livrou os enlameados tribunos da prisão e da cassação. Computadores foram apreendidos e um carro foi virado pelo avesso na busca de documentos comprometedores. Era sabido que todos os corruptos tinham telhado de vidro. Assim, vidraças foram atingidas pelas pedras retóricas de discursos inflamados. Mas, não deu em nada.
A fúria dos deputados corruptos os faz vândalos. Enquanto as forças imperialistas se fartam em seus domínios, centenas de representantes do povo, não contando com o oficial financiamento público de suas campanhas, querem lutar pela reeleição. Muitos têm de se sujeitar ao trabalho escravo, servindo aos empresários doadores de campanha. A solução, então, passa a ser a luta desenfreada para a formação de um gordo caixa dois que garanta a riqueza e a independência da próxima propaganda eleitoral.
A covarde invasão do Congresso Nacional que vândalos, corruptos, baderneiros e ladrões realizaram no dia 1º de janeiro de 2003, vai ser repudiada pelo povo brasileiro, com todo vigor, nas urnas, em 1º de outubro do corrente ano.
3. Brasil na ONU: um país sem orquestras quer orquestrar o mundo
Jorge Antunes*
A comunidade musical brasileira está em estado de choque com a notícia divulgada no último final de semana: o governo de São Paulo acabou com a Orquestra Sinfonia Cultura. A orquestra da Rádio Cultura, a única no Brasil que dedica seu repertório totalmente à música brasileira, acaba fulminada por incompetente e absurda política cultural.
Enquanto isso, o Estado brasileiro tenta se impor no cenário internacional, reiterando a velha reivindicação do governo anterior: assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Um país sem orquestras quer orquestrar o mundo no concerto das nações.
Pois imagine, o caro leitor, o Brasil com uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Imaginou? Bem, agora imagine o representante brasileiro sentadinho na reunião, folheando a nova edição afegã de um livro do Paulo Coelho, ladeado pelos representantes do Reino Unido e da França.
Conversa vai, conversa vem, o inglês pergunta ao brasileiro: "Quantos livros vocês publicar para cada um milhão de habitantes?" "Quatorze!", responde o brasileiro.
O inglês, meio aturdido, diz: "Que coisa, né? Nós publicamos 164 títulos". O francês, palrador, se mete na conversa: "Nós publicamos 78 títulos".
O francês, lembrando de que no início do século 19 estivera no Brasil importante missão artística de seu país, quer saber um pouco mais: "E na universidade, qual a taxa de matrícula?" Mais uma vez constrangido, responde o brasileiro: "Hum! Uns 10%!" O francês, com inflexão descendente, exclama: "C'est pas vrai! Na França a taxa é de 50%!" O inglês se espanta: "Em nossas Universidades ser pouco menos: 48%.
O chinês não fica muito tempo calado: "Eu conhecer cutura brasilêra! Em 74 o presidente Geisel, em intercâmbio cultural de reaproximação, enviou-nos a dupla Chitãozinho e Xororó. Muita bonito!" O russo, coradinho e risonho, interrompe e comenta o frenesi com que FHC, em sua visita a Moscou em 2002, bateu palmas na apresentação de obra de Tchaikovski no Bolchoi. Pergunta então: "Além de Tchaikovski, de quem mais ele gosta?" "Caetano", obtempera o brasileiro. O chinês se mete mais uma vez: "E esse novo presidente Lula que reconhece nossa moderna política de mercado, de quê que ele gostar? O representante brasileiro na ONU, então, matuta, matuta e, de mão no queixo, simplesmente emite um longo "huuummmmm …"
Não! Não dá! Como é possível pretender palpitar nos destinos do mundo, ao lado daquelas potências, um país como este em que, ao invés de se injetar vultosos recursos na educação e na cultura, ao invés de se dar apoio à criação e à continuidade de orquestras sinfônicas, extingüem orquestras sem o menor escrúpulo?
O quadro é amedrontador. O discurso inicial do governo federal tentava nos convencer de que tudo se devia à "herança maldita" dos governos anteriores. Os governos anteriores se fazem presentes no estado de São Paulo que fecha uma das melhores orquestras sinfônicas do país. Hoje vemos que tudo é farinha do mesmo saco e que o absurdo já desponta como o mais coerente: uma aliança futura entre o PT social-democrata e o PSDB idem.
A área cultural vai de mal a pior. Os que esperavam mudanças importantes estão boquiabertos. Nosso ministro dançante começou com loas a Roberto Marinho afirmando ter sido este o grande defensor da cultura brasileira. A política de renúncia fiscal se aproxima cada vez mais do perfil que caracteriza o crime de lesa-pátria. O apoio à cultura, dever do Estado como preceitua a Constituição, é cada vez mais privatizado: empresários mandam, atuam como censores culturais, desmandam e lavam a burra com o dinheiro público.
Em matéria de música de concerto nosso país vai muito mal das pernas. O Ministério da Cultura nos envergonha, no mundo, com ações discriminatórias à nova música brasileira. Apesar das pressões do governo francês para que o "Année du Brésil en France" se enriqueça com a nossa música contemporânea, o MinC insiste no projeto de levar a Paris apenas instalações duchampianas alienantes, passistas com porta-bundeiras (sic), música popular de FM e filmes da linha novela-cine-chacina.
A música erudita brasileira passa a viver uma crise sem precedentes. Muitos ainda não se deram conta da questão, mas é urgente que se tome consciência do problema para que uma resistência se organize. As Universidades públicas brasileiras têm se revelado, durante os últimos 25 anos, como o grande manancial da música erudita e o celeiro da invenção e da difusão da música nova. Mas essa trincheira está ameaçada. Se a reforma universitária vier a ser implantada, o ano de 2005 marcará o sepultamento da música erudita. Sob o comando do FMI e do Banco Mundial quer-se implantar a "universidade de serviços". Sobreviverão as áreas acadêmicas que venderem seus produtos. Químicos e geólogos talvez possam, sem prostituirem a ação acadêmica, coordenar parcerias, por exemplo, com empresas de prospecção. Mas um Departamento de Música para sobreviver sem verbas da União teria que acabar com a pesquisa musicológica, fechar seu laboratório de música acusmática, abandonar a formação de sinfonistas e regentes para abrir cursos de hip hop, implantar bacharelados em DJ e empresariar shows de música popular.
O governo Lula, dando continuidade à política de FHC, faz opção surpreendente pela humilhante submissão ao FMI e ao governo Bush. Sua política externa, que no início aparentava ser progressista, hoje se revela como uma linha auxiliar do imperialismo norte-americano. Para puxar o saco dos donos da ONU, o Brasil atendeu o apelo desse organismo internacional gastando milhões para fazer uma ridícula ocupaçãozinha no Haiti. Os mesmos dirigentes que dizem não existirem recursos para financiar a educação superior ou para manter e apoiar orquestras, são capazes de pagar dívida de milhões de reais à ONU, para tentar comprar um lugar no seu Conselho de Segurança.
O verbo orquestrar, no politiquês, é hoje sinônimo de urdir, tramar, maquinar. A todo momento políticos brasileiros usurpam a expressão musical para atacarem adversários em seus discursos, dizendo que tal ou qual manobra foi "orquestrada" por fulano ou beltrano. Deixo aqui meu apelo para que, pelo menos em respeito à sobrevivência da matriz metafórico-etimológica, nossos políticos envidem esforços para ressuscitar a Sinfonia Cultura e para destinar recursos públicos a antigas e novas orquestras.
* Jorge Antunes, 62, é maestro, compositor, professor titular da UnB e membro da Academia Brasileira de Música
Voltar ________________ 4. Cultura no DF
Jorge Antunes
Desde 1875, quando surgiu nos cabarés da Lapa, o maxixe era abominado pela intelectualidade. Os eruditos torceram tanto o nariz que, quatro décadas depois, a polícia proibiu a prática da dança em razão da lascívia de seus praticantes. A baixaria só veio a ser reconhecida como arte quando Mário de Andrade, já nos anos 30, qualificou o maxixe como a primeira dança genuinamente brasileira e estudou sua gênese sincopada da cultura afro-lusitana.
Esse tipo de história, em que intelectualóides condenam a arte comercial de mau gosto, viria a se repetir com a Geração Paissandu, no Rio. Os jovens intelectualizados dos anos 60, freqüentadores do Cine Paissandu, passaram a se apaixonar pelas musas de Godard depois de muito torcerem o nariz para as chanchadas da Atlântida. Enquanto Anna Karina e Anne Wyazenski eram cultuadas no Paissandu da Rua Senador Vergueiro, astros como Eliana, Oscarito, Cyl Farney e Adelaide Chioso, na tela do Poeira da Rua Larga, eram repudiados pelos intelectuais. Hoje a Chanchada é matéria de estudo na Universidade, cultuada de modo científico, e é assunto de inúmeras teses acadêmicas nas áreas de Cinema e Comunicação.
Por essas e outras eu não condeno os tchans, as bundas televisivas, as danças da garrafa e nem as egüinhas pocotós. Estou certo de que dentro de uns 30 anos, teses e mais teses serão na Academia, estudando o comportamento e a semiologia das egüinhas rapidinhas dos bailes funks, e a estética e estilística de poucos tons dos pocotós. Já vislumbro defesa de tese no Anfi 9, em 2040: "A interdisciplinaridade como forma de hibridismo na egüinha pocotó, sob um olhar fenomenológico e calipigista".
Assim, não me assombro em ver, na capa do Correio Braziliense, a foto de um aluno do Sigma mergulhando de modo cego sobre outros adolescentes roqueiros durante o recreio. Isso é cultura. Se em Brasília é raro vermos jovens malhando judas no Sábado de Aleluia, também não me assusto tanto. Nem mais fico indignado ao ver consagrada a importação do halloween ianque. Tudo isso é transformação cultural.
O Distrito Federal pulsa culturalmente de modo multifacetado. As programações de teatros, cinemas e outros espaços, divulgadas semanalmente em nossa cidade, refletem plenamente o caleidoscópio cultural. A cidade fervilha com duplas caipiras, concertos sinfônicos, filmes, música popular, música de câmara, memória, teatro, fotos, exposições, esporte, artes plásticas, etc.
Mas, convenhamos, não há eqüanimidade estética. A arte contemporânea de vanguarda não tem espaço. Nisso as programações são perfeitas, porque refletem a realidade candanga: a arte de consumo fácil e imediato prevalece. Os produtos massificados, em geral de vida efêmera, têm apoio do Estado, da Mídia, dos banqueiros, da Indústria e do Comércio. A arte nova, comvida potencialmente não efêmera, esperneia desesperada para sobreviver.
Na recente movimentação reformista que pretendia acabar com as chamadas leis de incentivofiscal, não houve avanços. Pelo contrário, aconteceu um recuo. Sempre existirão empresários que querem destinar parte de seus impostos a projetos culturais. Mas, evidentemente, eles só o farão para os projetos que lhe dêem retorno imediato. É bom e barato, para o empresário, associar sua marca e seus produtos a manifestações culturais que atingem facilmente um grande público: música popularesca; teatro de artistas globais; duplas que habitam freqüentemente as domingueiras televisivas; música clássica e romântica consumida rápidamente por esnobes, dondocas e itamaratacas; danças deslumbradas e vazias que, subindo pelas paredes, fazem a platéia afrescalhada fazer o mesmo; ...
O neoliberalismo brasileiro agudizou o problema porque o Estado, na onda de tudo privatizar, abdicou de seu dever de apoiador da Cultura: deu ao empresariado, através das Leis de Incentivo, o papel de promotor e censor artístico-cultural. O empresário destina seus impostos, dinheiro público, apenas para a Cultura de consumo vasto, garantindo a lucrativa exposição de sua imagem e de seus produtos.
A revisão das leis de incentivo fiscal para a cultura deveria, para contemplar a arte nova, experimental, ainda de pequeno público, partir para outros caminhos. Por exemplo, não deveria ser dado ao empresário o direito de escolher o projeto para o qual seria destinado seu imposto. O empresário não é confiável para esse mister. A ele não interessa investir em arte que possivelmente só terá grande público no futuro, em platéias das gerações futuras. Essa fatia do dinheiro público, oriunda da renúncia fiscal, deveria ser destinada a um fundo cultural administrado pelo Estado, através de comissões representativas de artistas e estetas.
Ironicamente alguns chamam essas leis de Leis do Mecenato. Pelo menos essa ignomínia ao Sr. Mecenas deveria ser condenada. Os ossos de Caius Cilnius Maecenas, que em vida abriu suas e outras portas aos artistas, latejam de revolta em alguma tumba de Arezzo sempre que a palavra mecenato é pronunciada no Brasil.
Jorge Antunes é maestro, compositor, professor titular da UnB, pesquisador do CNPq e membro vitalício eleito Academia Brasileira de Música
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Voltar_______________5. Homens bons
Jorge Antunes
Professor Titular da Universidade de Brasília,
Pesquisador Nível 1 do CNPq,
Membro da Academia Brasileira de Música
Ala Senador Filinto Müller, Gabinete 3, Senado Federal, 70165-900 Brasília, DF. Que endereço maravilhoso! Era assim que o remetente Senador Lauro Campos escrevia no verso dos envelopes que recebi durante anos, trazendo folhetos e livros com seus belos e inteligentes discursos.
Ala Senador Filinto Müller, Gabinete 5, Senado Federal, 70165-900 Brasília, DF. Que belo endereço! É assim que o remetente Senador Cristovam Buarque escreve no verso dos envelopes que recebo contendo gentis saudações e cumprimentos.
Ao ver ser mantida essa tão sincera e emocionante homenagem a Filinto Müller feita pelo Senado, lembro-me de outras interessantes homenagens do passado. Ai, que saudades do Hospital Presidente Médici! Oh, que saudades do Parque Rogério Pithon Faria!
São tantos os defuntos que merecem homenagens que, infelizmente, alguns deles ficam sem espaços, hospitais, ruas e alas a que possam dar seus nomes. Seria preciso, urgentemente, estabelecer regras que permitissem mudanças de nomes em locais públicos. Exemplos desse tipo de rotatividade existem.
O Hospital dos Servidores da União (HSU) de Brasília foi inaugurado em agosto de 1972. Servidores da União era expressão que alguns meses depois iria cansar a beleza do poder constituído. Assim, o nosocômio ganhou logo outro nome: Hospital do Distrito Federal Presidente Médici (HDFPM).
Em 1980 o Hospital Presidente Médici teve seu nome mudado para Hospital Docente Assistencial (HDA). O Garrastazu Médici foi um homem bom. Após a morte do também homem bom Costa e Silva, Médici foi indicado para ocupar o cargo de presidente do Brasil. O homem bom, presidente, enfrentou aquela série de seqüestros de embaixadores praticados pela esquerda. A eliminação daqueles grupos enriqueceu o currículo do general que deu nome ao hospital. O santo general milagreiro esteve à frente do chamado milagre brasileiro. Mas o nome "docente assistencial" também merecia homenagem e, até mesmo, soava melhor. Docente Assistencial era, entretanto, nome que cinco anos depois também já não soaria tão bem: ao final da década de 80 o HDA teve seu nome mudado para Hospital Universitário de Brasília (HUB).
Algo parecido aconteceu com o Parque Rogério Pithon Faria. O Rogério não chegava a ser exatamente um homem bom, mas era um menino bom. O rapaz deveria dar nome ao maior parque urbano do mundo, inaugurado pelo Circo Orlando Orfei em 12 de outubro de 1978, dia da criança, pois colecionava duas fortes razões para receber a homenagem: morrera em acidente automobilístico causado por alta velocidade de seu veículo e era filho do governador do Distrito Federal, outro homem bom nomeado para o cargo pelo bom homem Presidente Geisel.
A rotatividade justa tinha que acontecer. Rogério deu o que tinha que dar. Outros fortes candidatos a homenagens surgiam. Assim, a população apoiou a nova denominação: Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek.
Enquanto isso, lá está, no Senado, intocável, a Ala Filinto Müller. Filinto também era um homem bom. Grande cidadão brasileiro que foi humilhado na Coluna Prestes: foi expulso sob a acusação de covarde, desertor e indigno. Que sofrimento! Por muito menos Eustáquio foi santificado. O general romano, no ano 112, se recusou a agradecer a Deus pela vitória de suas tropas, desagradando o imperador Trajano: virou santo.
O homem bom, senador da República, presidente da Arena, está lá bem relembrado no endereço do homem bom Cristóvam Buarque. Filinto, temido chefe de polícia do Distrito Federal em 1934, deu enormes contribuições à nação e, assim, merece a homenagem.
As surras que ele deu, com cassetete de borracha, em 1935, em Arthur Ewert e Elise, foram corretivos importantes. É bem verdade que o homem bom Filinto exagerou um pouco ao liderar aquela turminha que machucou o ânus e o pênis de Ewert de várias formas, chegando a introduzir um palmo de arame dentro de sua uretra. Com um maçarico, em seguida, a ponta do arame foi esquentada. O calor abrasador do herói que dá nome à Ala em que se localiza o gabinete de Buarque se materializava naquele arame.
Faz-se necessária a rotatividade nas Alas do Senado. Outros homenageáveis estão na lista de espera. O Senador Sergio Cabral bem que tentou promover a rotatividade. Em 2003 ele apresentou o projeto de resolução nº 12 que alterava a denominação da Ala Filinto Müller para Ala Nelson Carneiro. Mas o Senado recebeu bem o relatório pela rejeição elaborado por outro homem bão: o Senador Edison Lobão.
E lá continua a Ala Filinto Müller. Se existe algum senador que se interesse em promover a justa rotatividade, que se lembre de Nelson Carneiro ou Lauro Campos.
Voltar__________6. O Brasil bufão dançou!
Bufão! Essa é a figura que melhor representa o governo que agora completa um ano de idade. Páginas e mais páginas de jornais e revistas se encheram de fotos de um presidente risonho, simpático, burlesco, bonachão, cada dia com um boné diferente. Para as câmeras ele posou com violino, com guitarra e com voz rouca de gafes. O reflexo na área cultural foi imediato: o ministro dançou sempre! Era a metáfora do reformismo complacente pró-imperialista que mandava o recado: -Todos vão dançar!
E dançamos. Principalmente nós, artistas da arte não popularesca e comercial, dançamos! Tudo indica que vamos continuar a dançar. A Lei do Mecenato tinha que ser reformulada totalmente. Empresários não são pessoas isentas para escolher projetos culturais aos quais devam ser destinados seus impostos. Para ser dada oportunidade às obras de arte nova, não efêmeras, formadoras de lastro cultural para as gerações futuras, seria necessário um outro esquema: o empresário que quisesse destinar seus tributos à cultura, deveriam depositá-los em um fundo, para que uma comissão representativa de estetas e artistas determinasse sua destinação.
A nova política cultural do governo privilegia a indústria cinematográfica. O próprio ministro declara que essa é a classe mais organizada e que, assim, merece apoio total. O cinema brasileiro, mais indústria que arte, encontra tetas por toda parte deste corpo enorme que é o Estado. O cenário musical brasileiro, entretanto, está totalmente reservado para a arte comercial. A Música fica à mercê das leis do mercado.
É um absurdo o governo dar atenção apenas àqueles que gritam em coro nos festivais de cinema e que, facilmente, ganham espaços na mídia. A classe musical que dá continuidade ao legado de Villa-Lobos também é organizada, mas de modo atomizado e pobre. Sociedades musicais várias se articulam, esperneiam e gritam sem encontrar ouvidos que ouçam. Associações de flautistas, de trombonistas, de violoncelistas e de tantos outros músicos estão por aí tentando, sem sucesso, a atenção dos olhos do poder. Sociedades várias, desde as de compositores até as de regentes de coros, congregam centenas de profissionais da música erudita que lutam por espaços e por migalhas do Estado brasileiro. Orquestras de vários centros culturais do Brasil fazem das tripas coração criando associações de amigos que, desesperados, tentam buscar tábuas de salvação.
A todo momento o Palácio do Planalto e o gabinete do ministro ficam apinhados de artistas globais que reivindicam, conquistam ganhos e enfeitam fotografias. Não sei como essa gente consegue sair de suas cidades pagando passagens de avião e hotéis no DF. O que sei é que os artistas massacrados a que me referi acima, não têm como pagar passagens e hotéis para virem atuar em Brasília como lobistas.
Enquanto artistas eruditos procuram estar onde o povo está, o ministro e o poder público deveriam procurar estar onde o artista está. O presidente bufão é capaz de estar no show da filha de Elis Regina, mas não toma a iniciativa de estar num concerto sinfônico comum sem pompa ou gala. O ministro dançante é capaz de estar visitando cineastas antológicos no Rio para ouvir seus reclamos, mas não é capaz de abrir a antologia musical para conhecer outros nomes, seus vizinhos, a serem visitados.
Para combater a pirataria, o governo é capaz de chamar, ao Palácio, uma trupe de cantores de música popular financiada por rufiões da indústria cultural. Mas o mesmo governo não é capaz de abrir os olhos e os ouvidos aos gritos desesperados de artistas cuja produção musical só será divulgada e conhecida se houver incentivo à cópia artesanal de gravações e apoio à pirataria.
Em 2003 o Brasil cultural dançou. A dança do ministro menestrel-bufão é dança macabra, porque arrasta a arte brasileira para as profundezas da baixeza e da mediocridade. Sobrevive na míngua a música erudita brasileira. Tudo o que se realizou no Brasil em 2003, na área da Música não popular, foi fruto de luta renhida e resistência heróica de alguns gatos pingados.
O capitalismo em crise parece desencadear uma política de terra arrasada e os entreguistas ganham terreno. O próximo passo do entreguismo oficial, tudo indica, é o golpe mortal contra a Universidade e o ensino público e gratuito. Sucateada gradualmente durante anos, a Universidade estrebucha e pode chegar à capitulação final em 2004. Ela foi, em 2003, o último bastião. A Universidade foi o último celeiro dos heróis da resistência musical. Na atual conjuntura brasileira não há como deixar de fazer coro com quem diz que os otimistas são pessimistas mal informados.
Jorge Antunes é maestro, compositor, professor titular da UnB e
Presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica.
Voltar___________7. O pomo, o joio e a GED
Jorge Antunes
A plantação de trigo, quando bem cuidada, é uma das mais belas paisagens que se oferecem aos olhos e aos sonhos. Os olhos se extasiam com a harmonia. Os sonhos se alimentam com a promessa do pão para todos. Mas existe uma maneira fácil de se destruir aquela harmonia e aquela promessa: basta jogar, na plantação, algumas sementes de Lolium temulentum. Esse é o nome científico da erva, da família das gramíneas, que é mais conhecida como joio ou cizânia. Essas duas palavrinhas, hoje, são mais usadas no sentido figurado. Fica sempre difícil separar o joio do trigo. Algumas sementes jogadas na bela plantação criam a cizânia.
A técnica de se cultivar cizânias vem sendo muito usada pelos três últimos governos entreguistas: os dois de FHC e o atual de Lula. A prática tem sido usada contra alguns movimentos sociais, para enfraquecê-los. Constante vítima tem sido o movimento docente. Para conseguir avanços no projeto privatista, que prevê desmonte do ensino público, gratuito, laico e de qualidade, o governo faz de tudo para destroçar a unidade da resistência acadêmica.
Em março de 1998 o governo FHC, através do fiel escudeiro Paulo Renato, jogou sementes malígnas nas Universidades: tentou criar o PID (Programa de Incentivo à Docência). A proposta estava incrustrada na Medida Provisória 1616 e só tinha uma intenção: a de criar a guerra fratricida entre os professores. O PID previa concessão de bolsas financeiras a uma pequena percentagem de docentes. O presente de grego seria encaminhado aos Departamentos, para que os próprios professores decidissem quais, entre eles, seriam os beneficiários. A comunidade universitária detectou a tempo os objetivos finais: a cizânia intramuros, a briga de foice no escuro e a implosão da universidade. Mas os professores universitários, atentos e fraternos, se uniram rechaçando o conluio insensato com uma greve nacional.
Lula gostou da técnica de FHC e resolveu bombardear a Universidade pensando que o movimento docente já não mais se lembrava das sementes de Lolium temulentum. Mesmo assim sofisticou a tática: ao invés de tentar instalar a cizânia, preferiu plantar a discórdia no interior do movimento docente.
A inspiração deve ter vindo da mitologia grega. Peleu, rei de Ftiótida, casou-se com Tétis, deusa do mar. Todos os deuses do Olimpo estavam na cerimônia nupcial e no banquete. Apenas uma deusa não foi convidada: Eride, a Deusa da Discórdia. Para vingar-se Eride jogou uma maçã entre as deusas Hera, Atenea e Afrodite, junto com um bilhetinho: "Para a mais bela." As três deusas começaram a disputar o pomo que, diziam, tinha sido colhido no pomar das Hespérides.
As três deusas, tão amiguinhas, se desentenderam. Cada uma, por se achar mais bela que as outras, dizia ser a destinatária do pomo enviado por Eride: era o pomo da Discórdia.
Lula gostou da idéia. Na calada da noite do dia 20 de agosto de 2004 os deuses palacianos urdiam a Medida Provisória nº 208. Tudo acontecia traiçoeiramente. Os deuses, que durante meses negociaram com o sindicato representativo dos docentes, preparavam a MP que desdizia tudo o que eles vinham dizendo na mesa de negociações. Prevendo reação forte do movimento docente, Lula foi então ao pomar do Palácio buscar algum fruto a ser inscrustrado na nova MP. Tinha que ser um pomo que, ao ser mordido, provocasse a discórdia entre os docentes enfraquecendo a resistência acadêmica.
A assessoria de comunicação do MEC dizia, antes da edição da Medida Provisória 208, que as três reivindicações da categoria seriam atendidas: percentual acima da inflação, diminuição da diferença entre ativos e aposentados e suspensão do caráter de produtividade da Gratificação de Estímulo à Docência.
A MP veio com propostas totalmente diversas, acentuando o caráter produtivista da GED e fixando um teto na pontuação mensal de que disporá cada Universidade. Se essa norma vier a ser adotada, a disputa e a competitividade interna entre professores vai virar guerra: para um professor alcançar 175 pontos da gratificação, outro só poderá atingir 105. O espírito de equipe dos grupos de pesquisa passará a ser destroçado.
Os docentes estão estupefatos com a canalhocracia que cada vez mais se instala. O diálogo que deveria ser praticado entre o Executivo e a sociedade, cada vez mais se revela falso. A ação sorrateira está sempre presente, simultânea aos sorrisos cordatos das mesas de negociação.
A cizânia que o governo quer plantar na resistência docente já foi detectada. O pomo de Lula endereçado "ao mais produtivo" não vai ser mordido. Os eruditos da academia, que conhecem os segredos das plantações de trigo e da Guerra de Tróia já são maduros o suficiente para, fortemente unidos, fazerem uso da única arma de que dispõem: a greve.
Jorge Antunes é maestro, compositor, professor titular da UnB,
Pesquisador do CNPq, Membro da Academia Brasileira de Música
e Presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica
Voltar_____8. O voto: um apanhado histórico para embasar
uma nova democracia na Universidade
(*) Jorge Antunes
Cenário 1:
1823. Palácio Tiradentes. Rio de Janeiro.
Antônio Carlos de Andrada, irmão de José Bonifácio, toma a palavra para defender o anteprojeto constitucional: "- Só poderão ser eleitores do primeiro grau os que provarem ter uma renda mínima de 150 alqueires de farinha de mandioca. Eles elegerão os eleitores do segundo grau, que devem ter uma renda mínima de 250 alqueires. Estes últimos elegerão deputados e senadores que, para se candidatarem, precisam ter uma renda de 500 e 1000 alqueires respectivamente."
"- Viva o voto censitário!" - grita um janota mais empolgado. O Constituinte sobe à tribuna e recita loas a D. Pedro I e ao Brasil independente. Em seguida solta a frase cruel: "- Mulheres, escravos e pobres devem ser impedidos de votar."
O plenário irrompe em aplausos.
Cenário 2:
1832. Câmara dos Comuns. Londres.
Sir James Graham, segundo barão Graham, pede a palavra em nome do partido conservador: "- Os indivíduos têm graus de instrução específica e de conhecimentos gerais diferentes. Portanto, comportam-se de maneiras diferentes no momento do voto. Eles podem ser mais ou menos sensíveis a pressões ou induções externas. Assim torna-se necessária a adoção do voto plural. Deve ser atribuído um peso diferente ao voto de cada pessoa de acordo com sua profissão, status e nível de renda."
Sir Henry George Grey, 3.º conde Grey, aparteou o nobre orador para com ele concordar: "- O partido liberal está de acordo com esse item, senhor barão. O voto de um conde, por exemplo, deve ter o mesmo peso dos votos de 1230 fiscais alfandegários!"
Cenário 3:
1892. Palácio Tiradentes. Rio de Janeiro.
O Constituinte Muniz Freire, do Espírito Santo, sobe à tribuna. É muito aplaudido ao bradar em alto e bom som: "- Não aceito a idéia manifestada por alguns ilustres membros do Congresso de estender o voto até às mulheres. Essa proposta é imoral e anárquica. A mulher, pela sua superioridade de afetos, tem na vida doméstica o seu destino a realizar."
O representante do Ceará, Barbosa Lima, pede um aparte para solidarizar-se com o orador e é bem mais dramático: "- Sou contra o voto da mulher não pela questão do direito mas, sim, porque o voto feminino provocaria a dissolução da família brasileira!"
A coerência do orador seguinte, Lacerda Coutinho, seria categórica. O representante de Santa Catarina achava inconcebível a idéia de se ter mulheres no Congresso. Assim, ele discursou: "- A conceder-se à mulher o direito de voto, deve-se-lhe também o direito de elegibilidade!"
Aristides César Espínola Zama, do Ceará, sobe à tribuna com ares de conciliador. Uma posição de meio termo talvez convencesse a maioria. Propõe então o direito de voto da mulher, com ressalvas, e apresenta emenda aditiva no artigo 69: "- Poderão votar inclusive as mulheres casadas, as viúvas, que dirigem estabelecimentos comerciais, agrícolas, ou industriais, as que exercerem o magistério ou outros quaisquer cargos, e as que tiverem títulos literário ou científico." O Deputado Espínola Zama não convenceu a ninguém.
Cenário 4:
1946. Palácio Tiradentes. Rio de Janeiro.
O Constituinte e ex-ministro Carlos Maximiliano sobe à tribuna: "- Só a elite alfabetizada deve votar. Ao analfabeto falta o meio de acompanhar atentamente a marcha dos negócios públicos e até o de verificar a exatidão da cédula fornecida por outra pessoa e por ele deposta na urna eleitoral."
Seguiram-se vários apartes de apoio ao orador.
"- Que o analfabeto procure os mestres, freqüente escolas gratuitas e terá adquirido a plenitude dos direitos do cidadão!"
Outro orador: "- A pessoa que não sabe ler e escrever não está apta a escolher seus dirigentes, constituindo-se em frágil massa a ser manobrada pelos mais letrados."
Mais um aparte: "- Permitir o direito de votar ao analfabeto, seria um estímulo ao analfabetismo."
Lá no TSE, ao saber do discurso inflamado de Carlos Maximiliano, o presidente Edgard Costa declara: "- A exclusão dos analfabetos do processo eleitoral não contraria a doutrina do sufrágio universal. Essa expressão não deve ser traduzida ao pé da letra."
Cenário 5:
1964. Sindicato dos Metalúrgicos. Rio de Janeiro.
O Cabo Anselmo, presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, faz um veemente discurso: "- Clamamos aos deputados e senadores que ouçam o clamor do povo, exigindo as reformas de base. É necessário que se reforme a Constituição de 1946 para estender o direito de voto aos soldados, cabos, marinheiros e aos analfabetos."
Cenário 6:
2001. Ala Norte do Minhocão. Universidade de Brasília
O professor reacionário diz para um funcionário, no corredor do Minhocão: "- São diferentes os papéis e responsabilidades institucionais de professores, alunos e funcionários. Isso deve traduzir-se em muito grande peso docente nos processos de escolha dos dirigentes universitários."
"- Muito bem, colega!"- grita um jovem professor que até um ano atrás era aluno da pós.
Logo faz-se uma roda de estudantes que passam a ouvir, incrédulos, argumentos os mais estapafúrdios.
"- A escolha de um reitor não pode ser semelhante à eleição para prefeito de um município!"
"- Um professor fica aqui a vida inteira, enquanto o aluno e o funcionário ficam pouco tempo!"
Cenário 7:
2004. Campus da Universidade Federal do Acre. Rio Branco.
O Reitor Jonas Filho tenta a reeleição. O presidente da comissão eleitoral, professor Domingos José de Almeida Neto, diz à imprensa: "- Esta é uma eleição proporcional. Um voto de um professor equivalerá a 96 votos de estudantes."
Moral da história
No alvorecer do século XXI a Universidade brasileira deve ser reformada, sim, mas de modo a consagrar seu espírito de comunidade com três segmentos que têm os mesmos ideais e os mesmos objetivos.
A Universidade não é um condomínio. A Universidade não é uma Sociedade Anônima. O Reitor não é um síndico. O voto, na democracia universitária, não pode ser plural, não pode ser censitário. Os professores não são proprietários de várias unidades. O corpo docente não tem mais ações ou frações ideais que os outros dois segmentos.
(*) Jorge Antunes, professor titular do Departamento de Música da UnB, maestro, compositor, é autor da Sinfonia das Diretas, da Cantata dos Dez Povos e da Ópera Olga.
Voltar_ ______9. Perigo: autonomia da Universidade
Jorge Antunes (*)
No dia 28 de janeiro último o Ministério da Educação promoveu, em seu auditório em Brasília, um evento, anunciado como debate, em que os reitores da Unicamp, da Usp e da Unesp apresentaram exposições acerca dos quinze anos de autonomia das três universidades públicas do Estado de São Paulo. A dita autonomia começou em 12 de fevereiro de 1989, através do decreto número 29.598.
As três instituições públicas são sustentadas por percentagem do ICMS de São Paulo. A fração do imposto que é destinada àquelas universidades se eleva, hoje, a 9,5%. Só mesmo São Paulo, coração financeiro do país, pode se dar a esse luxo de sustentar ensino superior de qualidade com pequena parte de um simples tributo.
O fato de o MinC trazer os três reitores a Brasília, já evidenciava o recado: –Vejam como é bom autonomia da Universidade! Mas os reitores não convenceram a ninguém. Tabelas estatísticas e curvas discretamente ascendentes foram exibidas no telão pelos três dirigentes universitários, mostrando os avanços e progressos alcançados durante os quinze anos de autonomia. Mas faltou, para comparação, a apresentação de informações e curvas referentes a outros quinze anos sem autonomia. Ficou no ar, assim, a pergunta: como teria sido se não houvesse autonomia?
A pergunta se justifica, sim, porque nas listas de pontos positivos e pontos negativos levantados pelos três reitores ficou gritando uma única afirmação unânime: a de que com a autonomia não existem preocupações com o terrível "exercício findo" que obriga o dirigente a gastar de qualquer modo, apressadamente, verbas que são liberadas de última hora no apagar do ano fiscal.
Aparentemente, essa foi a única vantagem apontada nas três experiências paulistas: a administração não se preocupa com gastos apressados no final do ano, porque tem certeza de que a verba pode ser guardada para uso no ano seguinte. Ora! Esquecem-se de que para se evitar esse problema, a autonomia não é a panacéia. Uma outra boa solução seria o Estado tomar vergonha na cara e não mais liberar verbas tardiamente. Bastaria disponibilizar as verbas bem antes do fim do ano.
Nas entrelinhas dos magníficos discursos, ficou também evidente que as curvas ascendentes se estabelecem, veladamente, graças aos recursos externos da Finep, da Fapesp, do CNPq e da Capes, cujas ações se processam, como sabemos, com ou sem autonomia na Universidade. A grande quantidade de pesquisas, doutoramentos e equipamentos para laboratórios não são frutos da tal autonomia, mas sim das verbas de orgãos externos de fomento.
Não interessa à universidade brasileira uma autonomia sem verbas generosas do Estado. O financiamento do ensino público, gratuito e laico, que não pode se apoiar em privatizações, nem mesmo disfarçadas, é e tem que ser dever do Estado. Apesar de precariamente regulamentado em 1996, o artigo 207 da Constituição brasileira não deixa dúvidas: "As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa, de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão."
A palavra "autonomia", que vem do grego, é composta do prefixo "auto", que significa próprio, e do radical "nomia", que significa regra. É essencialmente política essa concepção de "se governar por si mesmo". A idéia revolucionária não é nova: ela remonta aos séculos XI e XII, quando a delegação do poder, que se concentrava nas mãos da realeza imperial, começou a entrar nas pautas de discussão.
No momento em que o governo privatista e pró-imperialista sai na frente clamando pela autonomia universitária, a comunidade acadêmica passa a ser pobre que vê muita esmola e, assim, tem que desconfiar. Para complementação salarial, alguns docentes, corporativamente apoiados por instâncias superiores, já vêm comercializando aulas e salas da universidade em cursinhos de especialização. A autonomia sem verbas servirá, unicamente, para incentivar e institucionalizar, no varejo acadêmico, uma desesperada auto-privatização interna.
A autonomia universitária não pode ser confundida com soberania. Ela terá que ser entendida como poder derivado e não implicará em liberdade absoluta. Entretanto, se é fácil um controle externo com relação à má aplicação de recursos, o controle da livre captação de recursos será difícil quando administradores desesperados começarem a vender a alma acadêmica ao diabo.
O governo que vem facilitando a recolonização de nosso país tem vomitado, além de gafes, frases duras e ameaçadoras. Quem disse que em 2004 o "pau vai comer" na Universidade, pode muito bem dizer mais adiante: –Você agora tem plena autonomia! Se vire!
Ao nos certificarmos de que o governo vem preparando armas de destruição em massa do ensino público e gratuito, a resistência acadêmica terá que bushianamente decretar greves preventivas.
Jorge Antunes é professor titular da Universidade de Brasília
Voltar_________10. Transparência e democracia
Jorge Antunes
Professor Titular do Departamento de Música,
Pesquisador Nível 1 do CNPq,
Membro da Academia Brasileira de Música
Em dezembro de 2004 o Decanato de Assuntos Comunitários, mais uma vez, organizou a festa de confraternização de final de ano no Circo de nossa Universidade. Entre vozerios, sorteio de brindes, umidificação artificial e muita poluição sonora lá estava dinâmica equipe distribuindo, de mão em mão, o número 63 do UnB Notícias, com a reportagem especial "Para onde cresce a UnB".
Foi quando eu e outros colegas membros da comunidade universitária viemos a conhecer a lista de obras realizadas no campus em 2004 e algumas outras em andamento. Como uma espécie de prestação de contas, tudo vinha relatado na publicação da Assessoria de Comunicação. Quase tudo.
É uma falácia a transparência apregoada pela atual administração da UnB. Ela existe, sim, mas é muito especial: pratica-se a transparência do fato consumado.
Esse tipo de transparência é bem conhecido de quem já teve a oportunidade de admirar, em saguões de restaurantes ou clubes, algum belo aquário cheio de peixinhos, pedras, bolhas, tubos, plantas aquáticas, mini-tesouros e naviozinho naufragado. O aquário todo fechado, transparente, permite que nossos olhos observem o peixe grande que ataca, mata e engole um outro pequeno, as pedras mal colocadas que incomodam ou ferem guelras e a oxigenação mal feita causada pelo tubo cuja extremidade não está mais à tona. O vidro do aquário está limpo, a transparência é total, mas o observador nada pode fazer para mudar o cenário, as relações internas e o contexto do ambiente que está atrás do vidro.
Para o Instituto de Artes foi patético o período de alguns longos anos que antecederam o agosto de 2002, quando foi inaugurado o Complexo das Artes. O shopping, como é conhecido entre estudantes, é um prédio de precaríssimo conforto ambiental: um estudante de Artes Cênicas que ensaia uma fala em uma extremidade do prédio é ouvido por outro que tenta se concentrar numa leitura na outra extremidade a mais de 40 metros de distância.
O final do século XX foi dramático para as direções do Instituto de Artes que, para construirem o novo prédio, viviam tentando passar o chapéu, mendigando doações com o aval da Lei do Mecenato. Apelava-se até mesmo para doações dos próprios professores. Acreditava-se que os pobres coitados teriam imposto a pagar quando, na verdade, todos aguardavam salvadoras restituições. Banqueiros, enfim, financiaram, não sem contrapartida imobiliária, a construção do shopping. O Banco Real entrou no campus. Um convênio determinou que a UnB cederia uma área para o Banco Real construir seu posto e utilizá-lo durante cerca de vinte anos: a construção ficará para a UnB a partir de 2025.
O Departamento de Música reivindica seu prédio novo há mais de 15 anos. A planta da nova construção andou alimentando esperanças de mestres e maestros que não viram o sonho realizado. No papel heliográfico alguns colegas, hoje defuntos ou aposentados, já haviam escolhido suas salas. Motivos misteriosos e desconhecidos fizeram com que o autor da planta original a levasse para sua casa, desautorizando seu uso. Para consagrar o surrealismo, a administração não mais se interessou em buscar novo arquiteto para um novo projeto.
No início deste artigo chamei de Circo da UnB aquele enorme espaço que foi batizado como Centro Comunitário Athos Bulcão. O mestre dos azulejos e murais merecia dar nome a espaço mais nobre. O Circo da UnB é a demonstração inconteste da precariedade da universidade pública brasileira. Ali se escancaram as boas intenções que, no desespero da falta de recursos, rumam para o provisório, o anti-ecológico, a falta de ventilação, a acústica ambiente absurda que, com tempo de reverberação da ordem de 10 segundos, não permite qualquer comunicação artística ou verbal em condições inteligíveis e dignas.
Nessa conjuntura nada propícia para as Artes eis que a reitoria, que graças à execrável figura da reeleição é a mesma que tínhamos no final do século XX, faz com que a transparência do fato consumado agora desfile aos nossos olhos. Recursos próprios da UnB, sempre escassos para certas áreas do saber, hoje dão o ar de sua graça.
Entre os projetos concluídos encontramos alguns importantes na área de Odontologia e Farmácia. Além disso vemos também relacionados apenas um laboratório, alguns sanitários e estacionamentos. Em andamento surgem promessas de realização de velhos sonhos para a Geociências, a Física, a Engenharia Mecânica e a Informação. De resto, investimentos se voltam a garagens, estacionamentos e um prédio novo para o Cespe. Outro para a Fubra. Ou seja, está em andamento a construção de prédio novo para uma Fundação de Apoio que, de acordo com o anteprojeto de reforma universitária, deverá ser descredenciada em breve.
Algumas vozes isoladas, dessas que, apagadas, buscam visibilidade a todo custo, estarão tentando polemizar com o fato de se dar prioridade à construção do prédio do Cespe. Pouco importa a ordem de construção se todos os projetos da lista estarão em breve entrando na fase de licitação.
As construções anunciadas são, certamente, importantes. Mas outros projetos também importantes se encontram engavetados, não se sabe com que critérios. É perda de tempo fazer com que nossas preocupações se voltem para o cronograma de construções cujos projetos não foram transparentemente discutidos por toda a comunidade. Uma descarada política de balcão tem feito com que projetos saiam do papel através de uma relação biunívoca e exclusiva entre a administração e a parte interessada. As partes desinteressadas nunca são ouvidas.
Aqui entramos na abordagem do tema "democracia". Muitos acham que a Universidade de Brasília vive uma plena experiência democrática. Acham que democracia se resume em liberdade de pensamento e liberdade de expressão. É totalmente equivocada essa convicção. A plena democracia só se fará presente entre nós quando os órgãos colegiados tiverem reais poderes decisórios. A plena democracia estará vigorando somente quando todos os órgãos colegiados contarem com a participação efetiva e representativa dos três segmentos: docente, discente e técnico-administrativo. A plena democracia se implantará somente quando o Conselho Universitário se reunir periodicamente, com pautas em que predominem assuntos relevantes e não as concessões de títulos honoríficos. A plena democracia será realidade apenas quando todos os órgãos colegiados se reunirem periodicamente, contando com o respeito às suas decisões por parte da administração superior.
1. Os empresários bonzinhos e as doações
2. A covarde invasão do congresso
3. Brasil na ONU: um país sem orquestras
8. O voto: um apanhado histórico para embasar
uma nova democracia na Universidade
9. Perigo: autonomia da Universidade
![]() |
|||||||
![]() |
|||||||
![]() |
![]() |
||||||
![]() |
|||||||